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Chuva recorde e mês frio: o setembro de 2026 em Bauru/SP


Setembro - 2026
Mais chuvoso em 44 anos (265,4 mm) e 4º setembro mais frio em 25 anos (20,9 °C)
12/10/2026

 

 1. Síntese: setembro foi atípico?

 

Setembro de 2026 entrou para a história de Bauru/SP como o mês mais chuvoso da série iniciada em 1983. Segundo os registros da estação meteorológica local, foram 265,4 mm acumulados — 20,5% acima do recorde anterior (220,2 mm, em 2015), mais de quatro vezes a média histórica do mês (64,5 mm) e 381% da normal climatológica 1991–2020 (69,6 mm). A atipicidade, porém, vai além do volume — e é o que torna o mês peculiar.

 

Enquanto a chuva bateu recorde, a temperatura média (20,9 °C) ficou 2,2 °C abaixo da média de 2001–2025, configurando o quarto setembro mais frio em 25 anos e o mais frio desde 2022. Os extremos térmicos absolutos, por sua vez, permaneceram na normalidade: a mínima extrema de 10,7 °C (07/09) e a máxima extrema de 35,5 °C (27/09) praticamente repetiram as médias de suas respectivas séries históricas (10,9 °C e 35,3 °C). Essa combinação — recorde de chuva, mês frio pela média e extremos absolutos comuns — revela o caráter do mês: a nebulosidade e a umidade persistentes suprimiram o aquecimento diurno (amplitude térmica diária média de apenas 10,2 °C), sem que houvesse incursões de ar polar excepcionais.

 

O mês se dividiu em três fases bem definidas. Na primeira (01 a 16/09), concentraram-se 62% do acumulado (165,1 mm), com 13 dias consecutivos de chuva e o episódio mais frio do período. A segunda (17 a 23/09) foi de transição, com breve aquecimento e o segundo grande evento chuvoso (97,5 mm entre 19 e 23/09). Na terceira (24 a 30/09), o tempo seco e quente retornou: cinco dias consecutivos sem chuva e máximas que subiram até 35,5 °C.

 

2. Chuva: o recorde da série

 

 

Os 265,4 mm acumulados em setembro de 2026 consolidaram o mês mais chuvoso da série histórica de Bauru/SP, iniciada em 1983. Foram necessários 44 anos para que o recorde anterior — 220,2 mm, estabelecido em 2015 — fosse superado, e a margem foi expressiva: 45,2 mm, ou 20,5%. A magnitude do evento fica evidente nas comparações climatológicas. O acumulado do mês representou 4,1 vezes a média histórica de setembro (64,5 mm, período 1983–2025) e 381% da normal climatológica 1991–2020 (69,6 mm). Em termos de variabilidade, a anomalia de +200,9 mm equivale a cerca de 3,7 desvios-padrão em relação à média da série — nenhum dos 43 setembros anteriores chegou sequer próximo dessa distância em relação ao padrão climatológico.

  

O recorde não decorreu de um evento isolado, mas da persistência. A chuva se organizou em três episódios principais, que juntos responderam por 99% do total mensal: o primeiro entre 01 e 08/09 (32,3 mm), o segundo — e mais intenso — entre 09 e 16/09 (132,9 mm, metade do acumulado do mês) e o terceiro entre 19 e 23/09 (97,0 mm). Foram 21 dias com chuva registrada, incluindo uma sequência de 13 dias consecutivos (04 a 16/09). O dia mais chuvoso foi 10/09, com 45,2 mm, um dos três dias do mês com acumulado superior a 30 mm (ao lado de 19 e 22/09); outros oito dias registraram 10 mm ou mais.

 

O caráter excepcional do mês se destaca ainda mais quando inserido no contexto climatológico de setembro, mês tipicamente de transição entre o período seco e o úmido. Nos 43 setembros anteriores, apenas 10 (23%) superaram 100 mm, e 13 (30%) ficaram abaixo de 20 mm. O contraste com a década recente é notável: o período 2016–2025 apresentou a média mais baixa da série (32,2 mm), com 2025 registrando apenas 6,4 mm — o setembro mais seco da década. Em outros termos, o acumulado de setembro/2026 sozinho representa 82% de todo o volume de chuva de setembro acumulado na década anterior — um extremo seco seguido, quase sem transição, de um extremo úmido.

 

3. Temperaturas: frio pela média, extremos normais

 

Se a chuva definiu o caráter do mês, a temperatura média revelou sua consequência mais direta. Setembro de 2026 fechou com média de 20,9 °C, 2,2 °C abaixo da média do período 2001–2025 (23,1 °C) — o quarto setembro mais frio em 25 anos e o primeiro com média abaixo de 21 °C desde 2022. A anomalia, de cerca de 1,2 desvio-padrão, é expressiva, ainda que distante da magnitude registrada na precipitação, e interrompe uma sequência de três setembros consecutivos com médias iguais ou superiores a 24,1 °C (2023–2025). O dado mais intrigante, porém, está nos extremos. A mínima extrema do mês, 10,7 °C (07/09), e a máxima extrema, 35,5 °C (27/09), praticamente repetiram as médias de suas respectivas séries históricas (10,9 °C e 35,3 °C) — anomalias de apenas −0,2 °C e +0,2 °C. Em outros termos: não houve onda de frio excepcional nem onda de calor — o que houve foi um mês inteiro frio pela média.

 

A explicação está na cobertura nebular e na umidade persistentes, que suprimiram o aquecimento diurno: a média das máximas ficou em apenas 26,0 °C e a amplitude térmica diária média, em 10,2 °C, valor reduzido para o mês. A estrutura intra-mensal confirma essa leitura. A madrugada mais fria (10,7 °C em 07/09) ocorreu dentro do primeiro grande evento chuvoso, quando a entrada de ar frio pós-frontal derrubou a média diária a 13,3 °C; o dia mais quente (35,5 °C em 27/09) marcou o auge do período seco da última semana, quando o céu limpo permitiu o retorno do aquecimento típico da estação. O contraste com 2015 reforça a singularidade do mês: o segundo setembro mais chuvoso da série (220,2 mm) teve temperatura média de 24,1 °C, acima da média histórica — o recorde de 2015 veio com ar quente; o de 2026, com fluxo úmido e frio. Dois setembros extremamente chuvosos, assinaturas térmicas opostas.

 

No plano de longo prazo, a década 2016–2025 concentra os extremos de calor: 4 dos 5 maiores valores de máxima extrema da série ocorreram entre 2019 e 2024 (39,9 °C em 2020, 2021 e 2023; 38,9 °C em 2024), e a média decenal das máximas extremas (37,4 °C) supera em 2,1 °C a da série completa. No lado oposto, as mínimas extremas da década (12,0 °C) são as mais amenas da série. O padrão — noites menos frias e tardes mais quentes — é compatível com o aquecimento observado na região, embora a elevada variabilidade interanual e a extensão da série recomende cautela na atribuição.

 

4. Circulação e atribuição: por que choveu tanto?

 

A resposta para o recorde de precipitação está, em primeiro lugar, na circulação local. O vento predominante de Leste ou Sudeste registrou-se em 24 dos 30 dias do mês (80%) — fluxo de origem oceânica que transporta umidade do Atlântico Sul para o interior paulista. Não se trata de um padrão comum para setembro, mês em que a transição para o regime de verão costuma alternar dias secos de ar polar continental com episódios breves de umidade. Em 2026, a persistência foi a regra: os três episódios chuvosos que definiram o recorde se desenvolveram sob esse mesmo fluxo, sem intervalos prolongados de bloqueio seco. Os demais elementos observados na estação corroboram essa leitura sinótica. As quatro ocorrências de rajadas iguais ou superiores a 50 km/h (01, 19, 22 e 28/09) coincidem com os sistemas que trouxeram precipitação, indicando a passagem de perturbações organizadas. No início do primeiro episódio, a UR mínima de 29,3% em 03/09 registra o ar seco que antecedeu a chegada da umidade.

 

No plano de grande escala, setembro de 2026 ocorreu durante a intensificação de um El Niño que se tornaria muito forte. Formado em junho, o evento acelerou seu fortalecimento no início da primavera, e os principais centros de previsão (NOAA/CPC, IRI e WMO) projetavam evento forte a muito forte até o verão de 2026-27, com probabilidade superior a 90% — e chance de até 75% de ser o mais intenso registrado desde 1950. O paralelo empírico com a série de Bauru é notável: três dos cinco setembros mais chuvosos da série (2026, 2015 e 1998) ocorreram em anos de El Niño. A relação, porém, não é determinística — e a nota deve reconhecê-lo. O setembro mais seco da série (1983, sem chuva registrada) ocorreu justamente durante o El Niño de 1982/83, um dos mais intensos do século XX, e 1997, no auge do evento de 1997/98, ficou abaixo da média (54 mm).

 

A leitura correta é probabilística: o El Niño aumenta a propensão a setembros chuvosos em Bauru, mas a concretização depende da configuração de circulação em escala regional — que, em 2026, foi excepcionalmente favorável e persistente. O contraste térmico entre 2015 e 2026 reforça essa interpretação: os dois setembros mais chuvosos da série, ambos em anos de El Niño forte, apresentaram assinaturas térmicas opostas (2015 quente pela média; 2026 frio pela média), indicando que o ENSO modula o regime de chuvas, enquanto a resposta térmica local foi governada pela trajetória dos sistemas. Por fim, uma ressalva metodológica impõe-se ao recorte espacial desta nota: as análises baseiam-se em dados de ponto único, ou seja, a estação meteorológica do IPMet, portanto o recorde se restringe a Bauru.

 

5. Metodologia

 

Os dados apresentados nesta nota provêm de estação meteorológica de superfície do IPMet/UNESP em Bauru/SP, com registros diários de precipitação, temperaturas máxima, mínima e média, umidade relativa mínima, vento máximo e predominante e pressão média. As comparações climatológicas empregaram as séries históricas de setembro disponíveis: precipitação de 1983 a 2026 (44 anos), temperaturas extremas de 1984 a 2026 (42 anos com dados) e temperatura média de 2001 a 2026 (25 anos com dados) — nos três casos térmicos. As anomalias em desvios-padrão foram calculadas sobre a série completa de cada variável, e as referências de média empregam o período imediatamente anterior a 2026 (1983–2025 para chuva; 1984–2025 e 2001–2025 para as térmicas), além da normal 1991–2020 para precipitação.

 

Elaboração: Meteorologista Thiago Guerreiro Ferreira